Educação financeira
O brasileiro tem patrimônio, mas usa o crédito mais caro do mercado
Por que tanta gente com imóvel quitado recorre ao rotativo do cartão, e o que o medo de perder o imóvel tem a ver com isso.
Equipe JBF Capital8 min de leitura

O Brasil tem cerca de 70 milhões de imóveis. Menos de 30% deles têm financiamento atrelado, ou seja, a grande maioria já está quitada e livre de dívidas. Ainda assim, quando precisa de dinheiro, boa parte dessas famílias e empresas recorre justamente à linha de crédito mais cara do mercado.
O brasileiro tem o bem. O que falta é o costume de usar esse bem a seu favor.
O crédito que a maioria usa custa até mais de 300% ao ano
Cerca de 20% das pessoas físicas no país carregam alguma forma do que o mercado chama de crédito tóxico: rotativo do cartão, cheque especial e empréstimo pessoal. São linhas sem garantia, com juros que passam de 10% ao mês e podem chegar a mais de 300% ao ano.
Por que tanta gente usa? Porque é rápido. Não exige garantia, não exige análise demorada, está a um clique no aplicativo do banco. A facilidade de acesso é exatamente o que torna esse crédito caro: sem garantia, quem empresta precifica o risco de calote de todo mundo.
Comparação direta
| Linha | Juros ao mês | Garantia |
|---|---|---|
| Cartão de crédito rotativo | cerca de 12% | nenhuma |
| Cheque especial | cerca de 8% | nenhuma |
| Empréstimo pessoal | 4% a 6% | nenhuma |
| Crédito com garantia de imóvel | a partir de 1,19% | imóvel em alienação fiduciária |
Por que o home equity custa uma fração disso
No crédito com garantia de imóvel, o bem entra como garantia por meio de alienação fiduciária, registrada na matrícula em cartório. O risco de quem empresta cai, e o juro acompanha. É a mesma lógica do financiamento imobiliário, aplicada a um recurso livre, que cai na sua conta sem destinação obrigatória.
Você continua morando, alugando ou usando o imóvel normalmente durante todo o contrato.
O verdadeiro obstáculo: o medo de perder o imóvel
Quando explicamos a operação, a primeira reação costuma ser a mesma: e se eu não conseguir pagar? É uma preocupação legítima, e merece uma resposta honesta.
A retomada do imóvel só ocorre após inadimplência prolongada, depois de várias parcelas em aberto e de um procedimento formal em cartório, com notificação e prazo para regularizar. Atrasos pontuais não geram perda do bem.
Na prática, o home equity costuma ser a operação que protege o patrimônio. Quem troca uma dívida de 12% ao mês por uma parcela de 1,19% sai do ciclo de juros compostos que estava, esse sim, colocando o patrimônio em risco.
Para que as pessoas usam
O uso se divide quase igualmente em três grupos:
- Um terço para consolidar dívidas, trocando várias linhas caras por uma única parcela longa.
- Um terço para investir no próprio negócio: capital de giro, estoque, expansão.
- Um terço para despesas grandes, como reforma, saúde e educação.
Não existe destinação obrigatória. O recurso é livre.
Quase todo imóvel serve. O que muda é quanto ele libera
A maioria dos imóveis urbanos com matrícula regularizada está apta à operação. O que varia de um caso para outro é o valor liberado, e o fator determinante é a liquidez do imóvel: localização, estado de conservação e facilidade de venda. Em regra, o crédito fica entre 50% e 60% do valor de avaliação.
Vale saber também que é possível registrar duas alienações fiduciárias no mesmo imóvel, desde que o valor comporte as duas operações. Quem já tem uma operação ativa não está necessariamente fora.
Crédito bom é ferramenta, não emergência
Crédito bem estruturado é motor de desenvolvimento. O problema nunca foi tomar crédito: foi tomar o crédito errado, na pressa, sem comparar condições. Antes de assinar qualquer proposta, vale responder três perguntas:
- Qual o custo efetivo total, e não apenas a taxa anunciada?
- A parcela cabe no orçamento no pior mês do ano, não no melhor?
- Esse crédito resolve o problema ou apenas o adia?
Se a resposta às três for boa, o crédito deixa de ser um peso e passa a ser o que deveria ser desde o começo: uma ferramenta.
Escrito por
Equipe JBF Capital
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